Portugueses, Irlandeses e Brigantia

Uma das muitas coisas que sempre achei ao viver na Irlanda foi que os Irlandeses do Sul e os Portugueses do Norte tinham muitas semelhanças entre si.
Enganam-se os que acham que os Irlandeses têm todos um aspeto nórdico, na sua maioria, são de estatura baixa a media. Muitas vezes pensaram que eu era Irlandesa (o meu sotaque Irlandês ao falar Inglês também não ajudava), mas assim que eu dizia que era Portuguesa, muitos ainda levavam algum tempo a acreditar em mim. LOL
Quando fiz um dos meus estágios no Museu militar de Cork, Collins Barracks, um dos militares mais antigos, também historiador, veio contar-me que durante as Guerras Napoleónicas, muitos soldados de Cork, na altura sobre o jugo Britânico, foram destacados para Portugal. Na altura pensei: “olha, se calhar alguns deles apaixonaram-se pelas Portuguesas e foram ficando, provavelmente algum é meu ancestral, visto que pareço Irlandesa”, mas aquilo ficou por ali, em águas de bacalhau como se diz por cá.
No entanto, e como sou extremamente curiosa, manteve-se aquele bichinho de saber mais.
Dando um salto na história que me levou a escrever estas palavras hoje, entre buscas e leituras interessantes, há um nome de um dos primeiros povos da Irlanda, que despoleta uma intrincada rede de ligações que começam a fazer sentido, para mim, relativamente à ligação entre o povo do Norte de Portugal e o Povo do Sul da Irlanda.
Lebor Gabála Érenn, é uma coleção medieval de poemas, prosas e narrativas da história da Irlanda e do povo Irlandês, que nos fala que o território da Irlanda foi “tomado” seis vezes por povos diferentes: o povo de Cessair; o povo de Parthólon; o povo de Nemed; os Fir Bolg (o nome que despoletou isto tudo); os Tuatha Dé Dannan e os Milesians.
Pesquisando um a um, encontro uma ligação entre os Fir Bolg e os Milesians com a Península Ibérica. Mas poupando-vos toda a história de como os Fir Bolg passaram pela Ibéria para chegar à Irlanda, vou diretamente ao assunto dos Milesians. Estes são Gaels que navegaram para a Irlanda desde o Norte de Portugal e Norte de Espanha, antigamente, o território da Gallaecia, território do povo Gallaeci. Os Milesians (que me questiono também se terão ligação com a figura mítica da sereia de duas caudas Melusina, mas isso será outro assunto), teriam então chegado à Irlanda onde se confrontaram com os Tuatha Dé Danann (os Deuses Irlandeses). Segundo a lenda, os dois povos decidem dividir a Irlanda entre eles: os Milesians ficaram com o mundo superior e os Tuatha Dé Dannan com o mundo inferior (o Otherworld).
Mas os Milesians trazem mais conexões. Quando estes chegam à Península Ibérica por mar, antes de viajarem para a Irlanda, conquistam o território Ibérico e a cidade de Brigantium é fundada na Corunha, porém, não podemos nos esquecer, até porque naquele tempo as fronteiras não estavam definidas como nos dias de hoje, faria tudo parte da Galícia (que terminava no Rio Douro), que existe também uma cidade chamada Brigantia “do nosso lado”. Ora, será então com os Milesians que surgiu o culto à Deusa Brigância (Brigantia) no nosso território celta? Terá sido ela depois levada por eles para a Irlanda? Afinal temos mesmo muito a ver com os Irlandeses, pelo que vi na minha investigação, até ao nível de distribuição do ADN-Y. Ansiosa por descobrir que mais temos em comum… estará a escrita Ogham incluída? Talvez um dia os arqueólogos portugueses descubram uns riscos numa pedra que afinal fazem parte dum alfabeto muito antigo que une dois povos (três, contanto com os Galeses) dos dias de hoje.
Imagem: Arte de Melissa Trender

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